Carlos Malta e Pife Muderno
Carlos Malta e Pife Muderno

Foto por Daniel Lôbo

Inspirado pela cultura do pífano nordestino, o grupo foi criado em 1994, no Rio de Janeiro, pelo multinstrumentista carioca, Carlos Malta, e há 25 anos se mantém ativo como um dos maiores e mais longevos projetos da música popular brasileira instrumental.

Malta, com sua exuberante criatividade, propôs uma formação ousada e singular, com dois flautistas e quatro percussionistas, se uniu a músicos excepcionais, trouxe os elementos da tradição para conviverem com linguagens contemporâneas, do Jazz a ritmos brasileiros de raiz, enaltecendo os elementos regionais, e criou o Pife Muderno, grupo de uma imensa potência sonora e brasilidade legítima.

Com esse som único Malta desenvolveu uma nova leitura para as tradicionais bandas de pífano do Nordeste, que hoje se multiplicam pelo Brasil, muitas inspiradas na força e beleza desse trabalho.

Formado por um sexteto de músicos geniais, o grupo é aclamado na cena da música instrumental. Com três álbuns lançados, o Pife Muderno já se apresentou em importantes palcos e festivais no Brasil e no mundo, ocomo o Iº Rio Montreux Jazz Festival (2019), MIMO (Mostra Internacional de Música de Olinda, 2015), bem como nos palcos do Carnegie Hall em Nova Iorque (2012), o Forbidden City Concert Hall, em Pequim (concerto eternizado no álbum duplo Ao vivo na China, lançado em 2015); no Celtic Connections, em Glasgow, na Escócia, e no Ground Up Festival em Miami, EUA, ambos em 2017.

Os artistas envolvidos há 25 anos neste projeto são: Carlos Malta, músico com 40 anos de carreira e criador do grupo; Andrea Ernest Dias, 1ª flautista da Orquestra Sinfonica da UFF, doutora em música brasileira com tese sobre Moacir Santos publicado em livro; Marcos Suzano, percussionista de referência mundial, reinventou o som do pandeiro e colabora com diversos artistas pelo mundo; Oscar Bolão, um dos mais completos bateristas do Brasil, dono de um estilo pessoal ele agrega seu vasto conhecimento dos ritmos brasileiros; Durval Pereira, soma precisão e suingue inigualável, sendo um dos grandes destaques do zabumba no mundo, tambor considerado o coração da banda de pífanos; Bernardo Aguiar, o mais jovem integrante do grupo, pupilo de Suzano, que desenvolve seu som potente no pandeiro com personalidade própria. A maestria de cada indivíduo e a impressionante interação do grupo faz com que o som do conjunto seja de grande riqueza em timbre e dinâmica, numa perfeita sintonia.

Veja a Biografia do Pife Muderno

Veja os Depoimentos do Pife Muderno

 

 

PIFE MUDERNO: O LABORATÓRIO DE CARLOS MALTA – Por Guilherme Espir


Há um quarto de século – completados em 2020 – que Carlos Malta explora os ecos do pífano num de seus projetos mais longevos e ambiciosos: o Pife Muderno. Grupo formado com fortes raízes na cultura do pífano nordestino, o grupo se mantém ativo e atuante como um dos maiores projetos da nossa música popular instrumental.

O quinteto formado por Carlos Malta (flauta/saxofone), Andrea Ernest Diass (flauta), Oscar Bolão (bateria/percussão), Marcos Suzano (pandeiro), Durval Pereira (zabumba) e Bernardo Aguiar (pandeiro) fez um show que impressionou não só pela configuração e pela dinâmica, mas também pelo rico blend que mescla o Jazz, ritmos tradicionais do cancioneiro popular e elementos da música contemporânea.

Com um repertório ousado que conseguiu dialogar com referências que caminham desde Gilberto Gil até Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga, o sexteto mostrou um fino trato para trabalhar o balanço do groove sob uma ótica que enaltece os elementos regionais, sem passar nem perto do revisionismo.

Entre temas autorais e versões, a interação do grupo é talvez o principal pilar do som. Em dado momento, Durval e Bolão largaram seus respectivos instrumentos e fizeram um quarteto de pandeiros como se fossem uma sessão rítmica para a dupla de flautas de Carlos e Andrea.

O baterista Oscar bolão tirou um som absurdo de um kit minúsculo. Quando requisitado, ainda mostrou rara habilidade no triângulo e ainda gastou o couro do pandeiro com grande destreza. Durval Pereira se mostrou peça chave no contexto do som do grupo. É notável sua sensibilidade na zabumba, entretanto, sua percepção musical é que chama atenção, especialmente devido ao turbilhão de informações que é a cozinha do Pife Muderno.

A dupla Marcos Suzano e Bernardo Aguiar fizeram um trabalho muito interessante. Ao melhor estilo guitarras gêmeas, a dupla oferecia um contraponto aos grooves de batera de Oscar, respeitando o espaço da Zabumba, mas em plena sintonia com a dupla Carlos e Andrea.

Foi um show irretocável e que entre medleys surpreendentes deixou a plateia do SESC Consolação completamente perplexa em mais um dia de Instrumental SESC Brasil. Um dos grupos mais interessantes e entrosados que já assisti ao vivo, o Pife Muderno finalizou o set com “Pife de Prata”, nova composição do grupo em homenagem aos 25 anos de corre ininterrupto.

Ao final do espetáculo confesso que fiquei consternado, mesmo já tendo assistido o Carlos Malta em 3 oportunidades – uma delas ao lado do PRD Mais e outra com o projeto Duofel – mas dessa vez o negócio atingiu um novo patamar. Com um entrosamento quase telepático, Carlos toca com uma facilidade e uma liberdade exuberante.

Do alto de seus quase 60 anos o carioca mostra um ímpeto criativo fervoroso e que ao lado de um quinteto desse nível parece criar sem fazer nenhum esforço. O som é orgânico, brasileiro legítimo e enquanto o sexteto se divertia sob o palco, a plateia recebeu uma aula magna sobre referências históricas que são o elo entre o Jazz, a música indígena e o repertório da música popular brasileira.

Quando a última nota de “Pife de Prata” se dissipou, a única coisa que consegui pensar foi que se o grupo fez 25 anos e atingiu suas bodas de prata, meus ouvidos estão banhado a ouro depois de mais de 90 minutos de um som magistral.

Definir essa cozinha é difícil, porém, até mais complexo do que isso é prever o que o grupo fará sob o palco. Eles estão na ativa desde 1994 e enquanto Carlos seguir esculpindo o vento, nós aprendemos a reverenciar um instrumentista que é uma figura essencial para se compreender os rumos do groove nacional.

Foi uma honra maestro.

Por Guilherme Espir

https://oganpazan.com.br/pife-muderno-o-laboratorio-de-carlos-malta-resenha-sem-foto-2/